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sexta-feira, 27 de março de 2009

Entrevista

“Sou uma mulher realizada”

A primeira entrevistada do Palimpnóia é uma pessoa singular. Numa época em que se louva a independência econômica e emocional conquistada pelas mulheres, Fernanda Sampaio, a titular do blog “Mãe... e muito mais” não teme remar contra a maré e proclamar orgulhosamente a sua condição de esposa e mãe. Porém, incorrerá em erro quem imaginar que é conformada esta mulher nascida há 42 anos na localidade de Guimarães, Portugal, mãe de dois filhos (Duarte, 7 anos, e Letícia, 6). Ela cultiva inquietações que a fazem manter um blog atualizado semanalmente, onde expressa suas preocupações sociais, interesses culturais e estimula o exercício concreto e cotidiano da solidariedade. Conheça, a seguir, um pouco da vida e das opiniões de Fernanda, esposa dedicada, mãe amorosa e mais, muito mais...

Palimpnóia: Na visão do setor mais conservador da sociedade brasileira – majoritário – uma mulher inteligente e bem informada como você deveria estar no mercado de trabalho. Em Portugal também é assim?
Fernanda: Sem dúvida; conheço várias mulheres que anteciparam o término da licença de maternidade de modo a regressarem ao trabalho mais cedo, e não conheço nenhuma que tenha optado por deixar o trabalho, para se dedicar aos filhos. Socialmente a mulher que trabalha fora é bem-vista, em detrimento daquela que fica em casa. As mulheres sentem essa pressão e ainda que muitas queiram optar pela 2ª via, torna-se muito difícil assumir um papel que as desvaloriza aos olhos dos outros.
O que te levou a assumir o papel de esposa, mãe e dona de casa?
Como professora contratada eu não encontraria colocação próxima de casa, no mínimo seria obrigada a fazer viagens diárias de algumas horas, e tendo duas crianças muito pequenas (2 anos e 6 meses), concluí que seria melhor, para todos, abdicar da profissão. Para isso o incentivo e apoio incondicional do meu marido foram fundamentais.
Na intimidade dos seus pensamentos, você nunca sentiu vontade de ter seguido outro caminho?
Não houve um único momento de arrependimento pela opção que tomei. Se não me sentisse tão bem como sou, já teria idealizado outro tipo de mulher que gostasse de ser. É impossível responder a essa questão sem renegar o meu presente e a vida que construí. Já dei provas do meu profissionalismo (a mim mesma), já ganhei o meu sustento, hoje estou noutra fase e sinto-me realizada. Definitivamente, não poderia desejar ser outra mulher.
Como era a vida da Fernanda antes do casamento e dos filhos?
Era independente, exagerada e extremada (ou era preto ou era branco), divertida, convencida, inconsequente e egoísta. Ainda sou divertida (risos). Sou licenciada em Humanidades (Português-Latim-Grego); sempre gostei imenso de línguas, da Literatura Portuguesa e da cultura clássica.

Na blogosfera brasileira encontrei pessoas assumidamente espirituais, cultas e inteligentes. Em Portugal isso parece ser inconciliável. Aqui, dizer “sou mãe a tempo inteiro e acredito em Deus” é uma declaração suicida. Fogem de mim como se eu tivesse uma doença contagiosa.

Traduza o que significa o “muito mais” que dá titulo ao seu blog?
Acredito que dizer ”sou mãe a tempo inteiro” seja muito redutor, com este “muito mais” pretendi salientar que a “mãe” vai além da fronteira da maternidade. Sou uma mulher difícil de rotular, sou muito eclética e tudo me interessa, literatura, música, cinema, pintura, política, meio-ambiente, culturas diferentes... e tenho opinião sobre tudo! Neste “muito mais” cabe tudo isso.
O que a levou a criar um blog e interagir na blogosfera?
Quando compreendi que as mulheres que me rodeavam tinham uma visão limitadíssima do que é ser mãe a “tempo inteiro” procurei por outras, que pensassem como eu na blogosfera. Inicialmente só encontrei mães que faziam dos blogues diários dos filhos, o que me fez avançar para a criação do meu próprio blogue. Eu pretendia algo diferente, apresentar uma postura perante o mundo de mãe, mas também de cidadã empenhada na construção de um mundo melhor.
Qual a razão da preferência de interação com os blogueiros brasileiros?
Foi na blogosfera brasileira que encontrei pessoas assumidamente espirituais e, no entanto, cultas e inteligentes. Em Portugal isso parece ser inconciliável. Aqui, dizer “sou mãe a tempo inteiro e acredito em Deus” é uma declaração suicida. Fogem de mim como se eu tivesse uma doença contagiosa (risos). No Brasil nunca senti discriminação pela nacionalidade e nunca as diferenças linguísticas me causaram algum constrangimento.
A experiência no mundo virtual já te trouxe algum dissabor?
Dissabor, propriamente dito não. A situação mais aproximada foi a remoção de um comentário meu. Essa pessoa foi ao meu blogue, comentou e elogiou; eu fui retribuir a visita e constatei que ela já tinha até incluído o meu link entre os que lia. O último post dela, sobre o “Dia da sogra”, era, digamos, pouco simpático para as mães dos nossos maridos (tinha inclusive uma anedota na sidebar bastante insultuosa). Eu comentei que mesmo não tendo sogra, via que essa ideia estereotipada já estava ultrapassada, pois as sogras das minhas irmãs e amigas eram muito diferentes. Dias depois regressei ao blogue para ler a resposta (eu volto sempre quando existe esse hábito) e constatei que o meu comentário tinha sido removido, enquanto todos os outros, que descreviam as neuroses das sogras, continuavam lá. Para desfazer a dúvida consultei a lista de links da moça e também aí o meu link desaparecera. Enfim, sai como entrei: silenciosamente. Uma pessoa que demonstrava tolerância zero a opiniões contrárias não merecia nem mais uma palavra minha.

“O despojamento dos valores morais e éticos dos políticos é tão evidente que nas últimas eleições tenho votado em branco. Os ideais dos meus antepassados são hoje ilusões e desilusões."

Como concilias a condição de mãe com a atividade de blogueira?
Não foi fácil encontrar um ponto de equilíbrio, pois creio que todos sabem como a blogosfera pode ser viciante! Tive que definir prioridades: dei-me um determinado tempo diário para a blogosfera, conforme a minha disponibilidade, sobretudo enquanto as crianças estão na escola. Posto uma vez por semana e dou prioridade nos comentários a quem comenta no meu blogue (“gentillesse oblige”) e o tempo restante é para os blogues que gosto de ler.
É possível perceber que tens uma postura política e preocupações sociais bem definidas. Participas de algum movimento político?
Sou oriunda de uma família bastante politizada; o meu avô paterno foi perseguido pela Pide (Nota da Redação: polícia política a exemplo do extinto Doi-Codi brasileiro) durante a ditadura de Salazar e o meu pai só pôde exercer o direito de voto depois do 25 de Abril (NR: A Revolução dos Cravos que pôs fim à ditadura salazarista, em 1974). Impossível, portanto, alhear-me da política e não ter preocupações sociais. Contudo, não estou e nunca estive filiada em partidos, associações ou instituições; os ideais dos meus antepassados são hoje ilusões e desilusões. Sou fiel somente a pessoas e voto quando acredito que os candidatos possuem integridade e competência. Infelizmente o despojamento dos valores morais e éticos dos políticos é tão evidente que nas últimas eleições tenho votado em branco.
Como praticas a solidariedade?
Nunca me faltaram oportunidades para ser solidária, aliás basta ficar atento ao nosso redor para encontrar quem precise de auxílio, seja de que tipo for. Contudo, actualmente, devido à recessão as solicitações são imensas, nesse sentido eu e o meu marido temos colaborado com algumas associações. A solidariedade não é um tema que se debata (“Que a minha mão esquerda não saiba o que faz a minha mão direita”), é antes um tema a ser praticado.
Você conhece o Brasil?
Não conheço o Brasil ainda, mas pretendo visitar um dia. Os meus destinos de eleição são os seguintes: Salvador, na Bahia, de onde a minha bisavó é originária; Rio Grande do Sul, pela natureza grandiosa e Olinda, pela história portuguesa.

4 comentários:

Patrícia disse...

Fernanda,
gostei de te conhecer melhor
Patrícia, mãe da Teresa

6/11/10 22:39
Anônimo disse...

mmesOEG - hallo guys :D

http://spamerus.info

21/1/11 12:48
Anônimo disse...

Amiga só hoje li a tua entrevista na integra e muito bom te ler e saber o que pensas sobre varios assuntos

Carole resende

21/2/11 14:06
daniela! disse...

Oi Fernanda você está ótima nessa entrevista e foto! Também gostei de te conhecer melhor.
Beijinhos, Dani

22/6/11 14:12
 
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