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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Foi mais ou menos assim

Com tempo, a briga pelo tempo

Em horas vagas, desde alguns anos praticava caça submarina, e após uma teimosia de colegas que insistiram em irmos matar peixes em uma ilha bem afastada do litoral, apesar de haver, no meu pouco entender, prenúncio de nuvens que anunciavam uma frente fria, fomos, e ela chegou e se não provocou desastres conosco, o desastrado do dono da lancha em que eu estava (eram três) cometeu um deslize que nos obrigou a ficar na ilha por três dias enquanto as outras lanchas aproaram em direção Rio e foram embora.
Daí em diante, aprofundei meus conhecimentos com os pescadores litorâneos de alto-mar para entender todos os sinais dados por aves, animais domésticos, das restingas, peixes, nuvens e ventos, para prever os acontecimentos climáticos no litoral do estado do Rio de Janeiro.
Assinava um jornal de envergadura editado no Rio o qual tinha uma coluna sobre o tempo. Todo dia publicava uma fotografia em preto e branco de satélite, o Goes, acompanhada de tábua de marés, gráfico de temperaturas médias nas capitais do Brasil e algumas capitais do mundo e um pequeno texto sobre o clima no Brasil e no Rio. Lia-as todos os dias, recortava e as guardava numa pasta com folhas transparentes e assim passei a “consultor” no nosso clube de caça submarina. Tinha que me virar para estudar e gravar na cabeça as séries fotográficas, consultá-las e emitir “parecer” para os finais de semana, com um agravante: as caçadas poderiam ser na Ilha Grande, ao longo do litoral carioca, niteroiense ou Macaé.
Certa ocasião percebi que a foto do dia se parecia com uma de semanas passadas; fui à pasta-arquivo, folheei examinando detidamente e achei, estava lá. Com certeza! Vi que mais duas de dias diferentes eram iguais. Desconfiado convoquei a família e nos pusemos a identificar as coincidentes. Para facilitar, foram colocadas no chão formando “mosaico”.
Conseguimos identificar perto de 30 duplicadas, algumas triplicadas e por incrível que pareça, umas duas quadriplicadas. Fiquei indignado. O jornal por achar que ninguém iria conferir se ferrou.
Nem internet, nem e-mail, máquina datilográfica e papel carbono e a indignação. Quente como estava sentei o pau. Dirigi-me ao editor e denunciei o fato. Disse-lhe que tinha fotocópias do que eu afirmava, o logro. Disse-lhe que eu e muitos pescadores nos baseávamos nas cartas para sairmos para o mar, que estava catalogando e registrando as saídas em atas da Federação de Caça Submarina, que sabia que não se tratava de cochilos e sim de maldade, mesmo. Um outro jornal publicava algo bem mais moderno, por contrato com empresa de meteorologia. Perguntei se faltava dinheiro para tal e ofereci-lhe um empréstimo para que pudessem se modernizar, no tocante ao assunto. Comuniquei que dava um prazo de 30 dias para a mudança. Caso contrário iria levar ao conhecimento da empresa jornalística rival. Ainda fiz o desafio de perguntar se tinha coragem de publicar em Cartas dos Leitores. A empresa rival quebrou alguns anos depois.
Mandei a carta registrada com aviso de recebimento. O jornal recebeu e o aviso chegou-me às mãos. Não me responderam até hoje. Isto foi em dezembro de 1975. Em compensação, duas semanas depois, em um domingo, o jornal anunciava com estardalhaço numa página inteira, que havia contratado uma empresa de meteorologia para repaginar a coluna Tempo; aproveitou e fez entrevistas com dois funcionários do serviço de meteorologia do governo federal, um do Rio e outro de São Paulo, que deitaram falação, muita bobeira de mapas e coordenadas de temperaturas máximas e mínimas, sistema de alta e baixa pressão, frentes frias que vem da Argentina e blablablá. Frentes frias se originam na Antártica e Pacífico Austral e passam pela Argentina.
No dia prometido, primeiro de fevereiro, o grande acontecimento. O jornal estreou com todas as pompas a tal coluna, com mapas a cores do Rio de Janeiro, grande e do Brasil, menor, com riqueza de temperaturas máximas e mínimas nos dois mapas, escala de cores de temperatura, textos mais precisos de informação sobre o tempo futuro imediato e até cinco dias, estas com um ou outro erro. Eu acerto cada vez mais até hoje e não é presunção.
David vencera Golias, e entendi mais uma vez que (porque tenho histórias...) quando se está bem municiado com provas materiais, que quando os argumentos são irretorquíveis, que quando se cerca um sujeito, empresa ou governo por todos os lados, no estilo dá ou desce, sem lhe deixar saída ele tira as calças e dá. Fui festejado e muito pelos caçadores do clube e de outros que existiam em Angra, Rio e Cabo Frio.
Tenho paixão aloucada não romântica pelos céus e suas nuvens e sei ler os cirros, os nimbos, estratos, cúmulos e todos os mestiços filhotes; cada tipo tem sua prateleira de vôo e não muda de altura como os aviões, aí reside a diferença para a leitura; quando cai é chuva. Moro a 70 m. de altura do nível do mar, junto à Praia de Icaraí, com visão direta para o perfil orográfico da Serra do Mar, desde Volta Redonda até as cercanias de Nova Friburgo no norte /noroeste, e ao sul/sudoeste que abarca 270º graus de horizonte; no meio a oeste a cadeia de montanhas do município do Rio, e não faço a leitura como a cigana que diz o futuro nas linhas da mão. Todos os anos se repetem as figurações básicas das estações com variações previsíveis em função do maior ou menor volume do vapor d’água transportado na alta e na baixa atmosfera. Todos os dias, pela manhã e à noite o fissurado aqui consulta o weather.com para ver a animação das seis fotos em média que mostram o passeio das grandes massas atmosféricas desde a África, Equador Terreste Oceânico, Regiões Brasileiras, Andes, parte do Pacífico, Argentina e etc. Fotografar e filmar ocorrências climáticas das janelas é comigo mesmo. Só erra quem quer. A falta de conhecimento e o desinteresse levam à vitimização no campo e na cidade, com prejuízos descomunais em vidas e bens materiais. Quase todo mundo entrega o futuro a um protetor que não mora nas nossas plagas.

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