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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Euza: Tempo de seguir novas canções


Tudo me era estranho. Até o gato, espreguiçando no banco e olhando o desfile da vida, não me parecia gato. Queria mesmo era tomar um copo de cólera. Seria uma reação. Há tempos ando assim, como a deixar a vida passar por mim.
Naquele momento, não foi a vida quem passou. Foi um homem. Gordo e surpreendentemente ágil. Passou correndo e seu vento me deslocou. Tropecei nas pernas e nos pensamentos. O momento passou e tudo voltou ao que era antes. Eu, parada. Solidária às pedras. Solitária na falta de inspiração. É preciso inspiração pra seguir a canção. Talvez seja preciso o deslocamento do vento para nos dar a direção. Olhando os rostos mais ou menos conhecidos fui em busca do porto. O ponto.
É prazeroso estabelecer o ponto de partida, é sábio olhar de frente o ponto final. Quase sempre estendemos o momento de escrever o The End. Nos agarramos ao que sonhamos, ao que projetamos. E arrastamos as vírgulas, enfeitamos as reticências. Tudo para fechar as cortinas como nos contos de fadas. Mas nem todo final precisa ser feliz ou parecer feliz. Às vezes ele deve ser assim: lento e silencioso e sem importância. Às vezes ele apenas marca o fim de um tempo. E pendura as lembranças por cores, tamanhos, emoções. Lembranças que, em sépia, se tornarão preciosas e perfeitas e amadas. Palimpnóia (este nome esquisito) será esta bela lembrança.
A volta pra casa foi rápida. Nem foi preciso o copo de cólera - a gente reage quando menos espera. E toma o curso da vida. E apesar de ensaia os sorrisos. E lembra Clarice Lispector: “muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.” É tempo de seguir novas canções.

9 comentários:

Zeca disse...

D'Euza!

Tuas palavras, como sempre, dizem tudo e deixam, assim como o Palimpnóia, doces lembranças.
Doces, preciosas e amadas lembranças.
E, juntos e com nossas doces lembranças, retomaremos os cursos de nossas vidas. E, juntos em nossas amizades, seguiremos novas canções.
Beijos, carinho e (já) saudades.

2/8/10 10:38
Eurico disse...

Euza,

hj mesmo citei teu nome em um texto para meu perfil na blogosfera.
Vc é referencia pra mim.

Deixo meu abraço e uma canção nova e cordial para cantarmos com os amigo do Palim.

2/8/10 19:23
Assis Freitas disse...

novas canções e novos rumos nos abraçam nesta seara de encontros e desencontros, sempre há o que se recomeçar


beijo

3/8/10 08:58
Canto da Boca disse...

Euza, já se tornou lugar-comum, eu dizer que seus textos têm sido belas reflexões. Não sei se isso acontece por mera influência do meu momento; ou se pelo seu também, o facto é que ele me assoma, mas não me assombra e gosto demais de ser ainda surpreendida pela vida e pelas pessoas. Acho interessante essa postura de se rever sentimentos, opiniões, decisões, isso implica na aceitação sem dor (?) da transitoriedade da natureza, da vida, das pessoas, e acredito que sem essas reflexões, essas tomadas de consciência e decisões, não há crescimento. Como diz Dom Hélder Câmara: "é preciso mudar sempre, para continuarmos sempre os mesmos". Que as outras e novas canções te embalem e acalentem belos projectos e realizações.

Beijo grande e carinho!

3/8/10 16:48
Anônimo disse...

Euza, minha querida,

preciso ser esperta para encontrar seus rastros. e agora nas minhas mãos um gato preguiçando, um homem gordo, uma canção, um porto... e não tenho onde aportar. em mim, pura falta de inspiração. em você, a volta para a casa. para a matriz da linguagem, sua essência.
fico encantada com o sua habilidade. corta e recorta um sentimento para em seguida reconstrui-lo com elegância, perfeição, cuidado, deixando-o pronto para ser novamente recortado.

já vi que viajei... rs... é que adoro seus escritos.

beijos, carinho, saudades, AdéliaTheresaCampos

4/8/10 23:05
paulo disse...

Sempre é tempo, sempre é tempo.

10/8/10 21:52
Eurico disse...

As palavras não são meros estímulos nervosos em forma de sons, como queria aquele filólogo alemão. As palavras são explosões das coisas incontidas, são a reação ao copo de cólera...
As palavras... mesmo gastas, não se desgastam. Como abstrair a dor do dolente, sem a palavra?
Estou sem elas hoje... estou sem elas depois daquele email. Mas porque estou escrevendo tanto aqui, nessa caixinha de comentários. Eu sei a palavra que me move a mão no teclado: empatia.

E é só essa.

abraço carinhoso e fraterno.
beijo tuas mãos, Mulher!

20/8/10 09:00
Renato Couto disse...

Não é nova a canção, mas ao te ler não posso deixar de dizer (e relembrar): "Let it be, let it be..."

25/9/10 16:40
Sonia Pallone disse...

Querida Eusa...A grande magia da net é essa...Poder ir e voltar pelos mesmos caminhos, como se tivéssemos saido há pouco...Voltei, e respirei sua poesia como se fosse um raro perfume... Bjs querida, estou te seguindo pra não te perder novamente.

21/2/11 19:29
 
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