Páginas

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Zeca: Trivialmente

A diversidade do ser humano

Semana passada, ouvi de uma mulher bastante instruída, uma frase que não fez bem aos meus ouvidos. Ela comentava sobre a vida de uma pessoa conhecida e, em determinado momento, declarou: “Também, de uma mulher que gosta de outras mulheres, o que se poderia esperar?”
Sei que desde os primórdios da humanidade, entre os povos primitivos, entre os mais civilizados, entre iletrados ou intelectuais, sempre houve interesses e vivências afetivo sexuais em todos os sentidos, seja entre iguais, ou entre diferentes. Isso não é “um mal” da nossa época, é sim parte da nossa humanidade, que nos permite sermos capazes de viver a sexualidade numa diversidade de orientações. Grandes personagens da história foram homossexuais sem que sua sexualidade influísse nas suas contribuições em todos os campos, como heróis, guerreiros, aventureiros, desbravadores, cientistas, e tantas outras atividades.
Chega a ser desumano criticar ou julgar pessoas apenas por agirem diferente de nós. Quem somos nós para declararmos o que é certo ou errado, apenas pelas diferenças interpessoais? Essas idéias discriminatórias, maquiadas de verdades, constroem e solidificam preconceitos, intolerâncias, racismos, homofobias, que devem ser combatidos e não disseminados. Afinal, em nome dessas idéias, milhões de pessoas foram sacrificadas nos diversos campos de concentração construídos pelo mundo, não apenas pelos nazistas, mas por vários outros povos! Em nome dessas idéias, muitas guerras devastadoras destruíram territórios e populações! Essas idéias deveriam envergonhar a humanidade!
Não acredito que o mundo seja mau, mas creio na nossa desumanidade, fruto de uma incapacidade de amarmos a vida plenamente, como se ela fosse prerrogativa apenas dos nossos iguais. A rejeição àqueles que agem diferente reflete essa falta de capacidade de tolerar e apreciar a diversidade.
Esta reflexão me leva à conclusão de que precisamos recuperar certa inocência do olhar, tal como as crianças, que ignoram essas diferenças entre as pessoas. Para mim, a palavra principal que deve nortear nossas idéias é “respeito”. Respeito pelo outro, pela sua singularidade como ser humano e pelo seu direito de exercitar suas preferências. O homossexualismo não é uma escolha, é antes uma condição, uma orientação. Não creio que alguém escolheria ser homossexual sabendo que essa escolha lhe traria rejeições, preconceitos, sofrimento. A carga de preconceitos que recebemos com nossa educação, pode impedir-nos de avaliar, por exemplo, a quantidade exageradamente grande de casais heterossexuais, devidamente ligados pelos santificados laços do matrimônio, que se maltratam, desrespeitam, exigem que o outro se adapte às suas exigências, numa imposição humilhante e indigna ao mesmo tempo.
Eu não discuti o assunto com essa mulher. Talvez tenha me omitido, sei lá; mas não achei que valesse a pena questionar suas idéias. Afinal, ela é uma dessas pessoas que vivem casamentos de fachada, onde impera a vontade individual, sem respeito pelo outro. O marido cuida da sua própria vida, ela cuida da dela e os filhos, cada um por si. Não sei se com essa minha reflexão sobre o assunto ela conseguiria enxergar de maneira diversa a enorme diversidade que caracteriza a humanidade.
Ou será que estou agindo preconceituosamente com relação a ela, julgando-a e discriminando-a?

23 comentários:

Eurico disse...

Zeca, amigo.
O PALIM tem a nova e saborosa função: amenizar a saudade dos amigos.
Vim ler e assinar embaixo. A reflexão é pertinente, excetuada a última frase. Vc não a questionou pq foi indulgente com ela. Tolerante. E isso é muito positivo.

Fica com meu abraço fraterno.

24/5/10 10:13
Zeca disse...

Amigo Eurico, agradeço suas palavras e complemento que, em seu poema "Asas", você realizou o que sugiro no meu texto: a ingenuidade e o enternecimento nos aproximam mais da criança, que vê tudo e busca compreender o mundo, sem pr-ejulgamentos. Abração.

24/5/10 11:31
Maria Claudia Mesquita disse...

Zeca, vc termina a crônica com uma pergunta e fica difícil não querer responder. Mas a sua resposta está no meio do texto. O olhar alegre, curioso e generoso de uma criança nos ensina a amar. Um abraço.

24/5/10 14:55
Miguel S. G. Chammas disse...

Zecamigão, que bom te ler e confirmar que vc continua lúcido e bastante claro na exposição de idéias.
Sempre senti nos teus escritos o sorriso inocengte da criança que nexte texto voce apresentou.
Não vamos chover no molhado. Com intransigentes não se deve usar a intransigênca, usa-se da benevolência ou o desdém.
abraços saudosos,
Miguel

24/5/10 15:14
Soninha disse...

Olá, Zeca,querido amigo!
Sentíamos falta de suas crônicas, com assuntos importantes, os quais a sociedade vivencia.
Impossível dar pérolas aos porcos, não é mesmo?! Ao mesmo tempo, não podemos nos omitir quanto a orientar, esclarecer e, nem sempre, este esclarecimento pode ser alí, frente a frente, olhos nos olhos...
Muitas vezes a orientação chega através dos mais variados meios de comunicação. Este veículo que você usou é ideal para as pessoas absorverem, aos poucos, de acordo com seu grau de amadurecimento, o que elas poderão compreender.
Já dizia o Mestre Jesus aos seus discípulos: "Não vades, primeiro, aos gentios..."
Um dia,todos compreenderemos e aceitaremos a todos os nossos irmãos como iguais...que somos, efetivamente. Cada um, na sua função, no seu jeito de ser e de entender, principalmente no que se refira às escolhas, sejam elas quais forem.
Valeu, Zeca!
Muita paz! Beijosssssssssss

24/5/10 15:45
Canto da Boca disse...

Querido Zeca, é um grande privilégio para os/as leitores/as do Palimp, desfrutarem de uma reflexão tão importante quanto essa que nos trazes hoje; em um mundo que prima pelo múltiplo e pelo (a)diverso, ouvir e ver o tipo de comportamento aqui descrito - da pobre senhora -, é também um pleno exercício da tolerância, diante da ignorância e do egoísmo. Eu penso que argumentar pode ter o mesmo peso diante do silêncio, a situação e o contexto por vezes, determinam a nossa atitude. Acredito que o seu silêncio diante de tamanha barbaridade declarada, fê-la questionar-se da sua não-intervenção. Torço para que assim tenha sido. O brado do não-intervencionismo, diante de alguém que grita, às vezes é letal e surte um efeito devastador, noutras, a intervenção com um posicionamento e informações bem definidos/as, mudam completamente comportamentos e práticas preconceituosas diante de outros seres humanos. Mas a vigília é necessária, temos sim que estar atentos diante desses desafios de se conviver pacificamente em diversidade.

Um beijo grande, estou feliz por te ver de novo aqui no Palimp!

24/5/10 18:10
Jacinta Dantas disse...

Oi Zeca,
que alegria encontrar você aqui, entre letras, linhas e entrelinhas falando sobre um tema delicado que está colocado numa realidade complexa. Preocupa-me perceber a onda crescente de intolerância em torno dos diferentes. Mas, esperançosa que sou, acredito que há de chegar o dia em que todos seremos (re)conhecidos e valorizados por ser e se tornar gente.

Grande abraço

24/5/10 19:17
Beti Timm disse...

Fofinho, gostosinho!!

Como é bom te ler de novo!

Você falou com tanta propriedade sobre esse tema,algo tão impertinte, mas pertinente na sociedade e por vezes cruel, que isola o ser humano,
que se mostra "diferente" em relação aos outros.

Basta apenas duas coisas básicas e primordiais para esse "ranço" desaparecer: Amor e respeito! O importante é você olhar para alguém e antes de julgar, diferenciar, se lembrar que é tão mais simples amar, e em consequência respeitar. Espero que meus netos venham a vivenciar uma geração mais calcada no amor do que em tabus e regras obsoletas! É um sonho, não custa nada sonhar.

Beijinhos na pontinha do nariz.

25/5/10 01:53
Zeca disse...

Maria Cláudia, Miguel, Soninha, Boca, Jajá e Betinha!

Estou feliz com os comentários de vocês que mostram seus corações, livres e abertos como os das crianças, que ainda não foram contaminadas pelos pré-conceitos.
Essa é uma das minhas batalhas: espalhar a idéia de que, aliado ao amor, o respeito pelo outro nos ajudará a criar um mundo melhor. Se não para nós mesmos, para nossos filhos e netos.

Beijo carinhoso a todos.

25/5/10 11:03
Shirley disse...

Zequinha, é justamente quando a gente se defronta com gente com esse tipo de pensamento, mesquinho e, não vou usar palavrinha amena: GROSSO!, vem a terrível sensação (pelo menos em mim) de que a humanidade tá realmente fadada ao fracasso total! Pode parecer exagero, mas tem hora que cansan, né não? A boxxxta toda é que eu cabo tendo que olhar pra mim, pros meus próprios preconceitos e acabo me dando conta de que, um dia, poderia muito bem ter sido eu essa senhôura que te inspirou a escrever essa crônica. Eu, Shirley Pacheco, humana e fracassada! rs. Bjo, queridão!

25/5/10 11:42
Carlos Roberto de Oliveira disse...

Cada ser humano é um universo particular, e não pode ser julgado por suas diferenças em relação a outro ser humano.

Cada um deve escolher o seu caminho, os seus objetivos, determinar as suas metas, fazer as suas opções, inclusive a sexual.

O ser humano precisa aprender a viver com as diferenças, até porque são elas que dão o colorido à humanidade.

25/5/10 11:56
Lilian disse...

Ólá amigo,

Concordo plenamente com a sua postura na conclusão, de que devemos agir como as crianças que ignoram as diferenças entre as pessoas, mesmo porque, cada ser humano é único, cada um com suas próprias atitudes, suas próprias escolhas e seu modo individual de ser, apesar de vivermos todos em comunidade.

Devemos seguir os ensinamentos de Jesus, de amar ao nosso próximo como a nós mesmos. Deus ama a todos os seres humanos de igual modo, sem exclusão. Devemos nos respeitar, uns aos outros, sem qualquer distinção.

Carinhoso e fraterno abraço,
Lilian

25/5/10 16:18
Zeca disse...

Shizoca, obrigado pela parceria e, ainda que atrasado, feliz aniversário!

Carlos Roberto e Lilian, obrigado pela visita e pelas belas palavras.

Carinho a todos.

26/5/10 11:21
Lino Resende disse...

Zeca, acho que não há, no caso, preconceito seu. O comentário, no entanto, é claramente preconceituoso, já que sexo, etnia e credo, dentre outros, não devem ser olhados como impecilho para a boa convivênia. Fazem, todos eles, parte de nossa cultura e ajudaram a construir o que somos.

26/5/10 17:03
Euza disse...

Zequinha, tudo o que seu texto provocou em mim daria outro texto. Este papo de preconceito é forte e mexe terrivelmente comigo, vc sabe disso, né?
Pra não me alongar, vou apenas te parabenizar pela estreia - perfeita - e responder à pergunta como se estivesse sendo feita a mim.
Há um tempo atrás eu faria o mesmo sem me sentir preconceituosa. Hoje talvez eu tenha mais paciência com as diferenças - no caso entre eu e alguém que discrimina, exatamente porque tropeço em outros preconceitos - e seja mais longânime (conheço alguém que me chamaria de quase-santa se lesse isso!!! rs...).
Enfim, ando achando que tudo vale a pena quando se trata de batalhar por um mundo melhor, viu?
Beijo, queridão.

26/5/10 21:02
Zeca disse...

Lino, obrigado pelo seu comentário, sempre ponderado e claro.

D'Euza, percebo tua longanimidade quando dizes que meu texto poderia render um outro texto teu. Isso pra mim é uma honra, já que és, de longe, minha mais antiga musa. Mas, embora não sinta nenhum traço de magnânimidade em mim, senti ter sido, talvez, preconceituoso, por não ter tentado discutir com ela suas convicções arraigadas, como se a pré-julgasse, achando que já não tinha mais conserto...
Mas devemos, sim, lutar com todas as forças contra qualquer tipo de preconceito. Talvez consigamos melhorar um pouquinho esse mundo em que vivemos.

Beijos.

26/5/10 23:58
Euza disse...

Na verdade, fofinho, somos todos preconceituosos. A diferença é que alguns de nós reconhecem isso e batalham para transformar seus sentimentos e ações. Mas é uma luta constante, isso tb sabemos, né? Quase sempre caimos nesta situação de prejulgar - o que pode não constituir o que comumente chamamos preconceito, mas é uma discriminação! rs...
Eu não disse que este é um papo bravo? rs...
Beijo! (Agora vou mesmo, tá?)

27/5/10 06:44
Anônimo disse...

Virgem Maria, Zeca...seu sumico está demais....kkk

Vamos ao åpost!
EU POUCO ESTOU ME LIXANDO PARA QUEM ME ACHA DIFERENTE.
TOdos nós somos ÚNICOS!
Eu sei que PENSEO DE FORMA BEM EXPLICITA, VISCERAL. E NAO QUERO SER DIFERENTE. A muita gente, isso soa como desesperop.A outras, uma pessoa insatisfeita.
Nao sou NEM UMA COISA E NEM OUTRA. SOU EU!
E EU SOU ASSIM: INTENSA!
Se amo, falo..se detesto, tbm falo..De mim, goste quem quiser!!!
As pessoas estigmatizam pessoas por suas opcoes...Ora sexuais, ora maneira< de encarar o amanha..etc..
As pessoas naoa ceitam os outros. Isso é muito ruim. Talv3z para o sofrido...mas para quem naoa ceita , a vida é, seriamente, mais dolorosa. E menos doce.
Seria bom se as pessoas entendessem que nem todo mundo é igual eque o sabor da manga nao é o mesmo do caju...O caminho é por ai...
Bjs e dias felizes

Gostei do t exto

graceolsson.com/blog

27/5/10 07:29
Shirley disse...

Gente, adorei a metáfora da Grace da manfa e do caju, pois de rpente me dei conta que gosto de chupar uma boa manga e como, do caju, a fruta e a pseudofruta (oy o ocarço, pros mais íntimos). Enfim, o Ppnoia me fez me redescobrir: eu sou bi - u-huuuuuuuuu!!! :-|
Bjos!

27/5/10 10:39
Zeca disse...

D'Euza, reconheço que viver livre de (pre)conceitos, de julgamentos e de discriminações é uma barra pesadíssima, pois desde crianças somos bombardeados com essas coisas por todos os lados. É verdade também, minha amiga, que esse é um papo bravo, bravíssimo!!!

Grace, um dos motivos de você ser tão respeitada por tanta gente, fora a sua força, garra, determinação e coragem, é essa disposição para "colocar a cara a tapa" dizendo o que pensa, doa a quem doer. Em uma palavra dita por você, conseguiu resumir tudo: INTENSIDADE! E é por essa sua intensidade que gosto tanto d'ocê.

Shi! Você, do seu próprio jeito despachado e cheio de excelente humor acaba sendo igualzinha à Grace no que diz respeito a ser respeitada por essa postura que a diferencia da maioria das pessoas. E é também por tudo isso que eu gosto um tantão assssssssssssssssssssssim d'ocê.

Beijão procês.

28/5/10 12:29
Aline Belle disse...

Penso que não há amor correto e amor certo. Há amor e isso é independente do sexo/gênero. As pessoas precisam ser felizes e ter o direito de expressar seus afetos sem que haja julgamentos. Aquele que aponta o dedo tá na verdade tirando-o de sua ferida pq sempre é mais fácil cutucar o outro do que se curar. e coloca aqui 'curar' para aqueles preconceituosos e hipócritas...
Enfim.
Beijos, querido.

31/5/10 00:18
Marco disse...

Olá, amigo Zeca.
Olha, o ser humano é por definição preconceituoso. Ele teme e desgosta do que lhe é diferente. As pessoas querem se destacar em sua tribo e tornam inimigo quem não faz parte de seu bando. A gente só pode lamentar pela existência de pessoas assim. Como diria Cazuza, "vamos pedir piedade..."
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

31/5/10 11:56
Zeca disse...

Aline, gostei dessa frase que escreveu: " Aquele que aponta o dedo tá na verdade tirando-o de sua ferida pq sempre é mais fácil cutucar o outro do que se curar."

Marco, eu acredito que o preconceito vem com a criação que recebemos, mais o ambiente em que vivemos, pois as crianças, em princípio, não discriminam ninguém. Começam a discriminar quando os pais o fazem, ou em suas próprias vidas ou proibindo-as de se aproximarem de pessoas "diferentes". E a sociedade também cumpre seu papel separando as pessoas em raças, cores, crenças, usos, costumes, profissões, preferências sexuais e uma série de outras subcategorias.

Isso aconteceu comigo e com a maioria das pessoas que conheço.

Com o tempo e o (re)conhecimento de que somos todos humanos e, portanto, iguais, fui aprendendo a tentar não discriminar. Mas esse é um exercício dificílimo e, creio, para a vida toda.

Grande abraço,

31/5/10 20:29
 
PALIMPNÓIA | by TNB ©2010